segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Sobre os livros deuterocanônicos

Objeção 1: A Igreja Católica adicionou sete livros ao Antigo Testamento no Concílio de Trento (1546) para justificar suas doutrinas "não bíblicas".

    Em primeiro lugar, críticos dos livros deuterocanônicos na Bíblia frequentemente começam assumindo que o Antigo Testamento contém trinta e nove livros e o Novo Testamento, vinte e sete. Partindo dessa crença, apontam todos os "problemas" encontrados nos livros deuterocanônicos mostrando como eles não fazem parte das Escrituras já pressupostas anteriormente. Raramente é apresentado critérios objetivos para a inclusão ou não de um livro no cânon do Antigo Testamento. Não vemos argumentos como: "Olhe, aqui estão os critérios para que um livro se encaixe no cânon, veja como os deuterocanônicos não satisfazem um ou dois". É frequente, na verdade, deparar-se com afirmações desse tipo: "Os ensinamentos das Escrituras (geralmente há citações do Novo Testamento, cujo cânon também não possui critérios objetivos para a sua definição quando se aceita a doutrina de Sola Scriptura) conflitam com as doutrinas expostas nesses livros aqui e aqui, logo, eles não são inspirados". A pergunta é: como eles sabem que livros pertencem ao cânon das Escrituras Sagradas? Mesmo quando esses critérios são colocados, muitas vezes estes acabam por desqualificar livros já incluídos no cânon protestante também.

    A objeção não está de acordo com a história. Além de ser comum encontrarmos citações procedentes dos livros deuterocanônicos nas cartas dos líderes da Igreja primitiva (Clemente, Policarpo e outros), o Concílio de Roma em 382 estabeleceu o cânon da Bíblia: setenta e três livros; quarenta e seis destes integrando o Antigo Testamento e vinte e sete integrando o Novo Testamento. Essa decisão foi reafirmada pelos Concílios de Hipona (393), Cartago (397, 419), Florença (1442) e Trento (1546). Veja a seguir exemplos de historiadores protestantes confirmando essa posição: 

    

Pelo menos nos dois primeiros séculos, a igreja parece ter aceitado como inspirados todos esses livros, ou a maioria deles, tratando-os, sem maiores problemas, como Escritura. Citações de Sabedoria, por exemplo, ocorrem em 1 Clemente e Barnabé, e de 2 (4) Esdras e Eclesiástico, neste último. Policarpo cita Tobias; e o Didaquê, Eclesiástico. Irineu refere-se a Sabedoria, à História de Susana, a Bel e o Dragão e a Baruc. O uso que Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Clemente de Alexandria fazem dos apócrifos é por demais frequente e dispensa referências detalhadas (KELLY, J.N.D, Doutrinas Centrais da Fé Cristã, p. 39).

 

O concílio de Hipona em 393, e o terceiro (de acordo com outro acerto de contas o sexto), concílio de Cartago, em 397, sob a influência de Agostinho, que participou de ambos, fixou o cânone católico das Escrituras Sagradas, incluindo os apócrifos do Antigo Testamento [...]. O cânon do Novo Testamento é o mesmo que o nosso. Esta decisão da igreja de além mar no entanto, foi sujeita a ratificação, e recebeu a concordância da Sé Romana quando Inocêncio I e Gelásio I (414 d.C) repetiram o mesmo índice de livros bíblicos. Este cânone permaneceu intacto até o século XVI, e foi aprovada pelo concílio de Trento na sua quarta sessão (SCHAFF, Philip, História da Igreja Cristã, vol. III, Cap. 9).

 

      O precursor da Reforma Protestante, Lutero, tinha uma tendência para classificar a Bíblia de acordo com as suas preferências. Nos seus escritos sobre o Novo Testamento, notou que os livros de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse eram inferiores aos restantes, e seguiam "os livros certos e principais do Novo Testamento". Em 1519, esta mesma atitude levou João Eck, um teólogo católico e frade dominicano muito respeitado, a convidar Lutero para um debate sobre doutrinas colocadas em cheque pelo reformador. Nesta disputa teológica, Lutero minou o texto de prova de 2 Macabeus 12 de Eck ao depreciar os livros deuterocanônicos como um todo. Argumentou que os autores do Novo Testamento nunca tinham citado os sete livros, então eles se encontram numa classe diferente do resto da Bíblia.

    No prólogo de uma de suas edições do Novo Testamento, Lutero escreve:

 

Deve-se distinguir entre livros e livros. Os melhores são o Evangelho de São João e as Epístolas de São Paulo, especialmente aquelas aos Romanos, aos Gálatas e aos Efésios, e a primeira Epístola de São Pedro; estes são os livros que te manifestam a Cristo e te ensinam tudo o que precisas para a salvação, ainda que não conheças nenhum dos outros livros. A Epístola de São Tiago, diante destas, nada mais é que palha, pois não apresenta nenhuma marca evangélica [Prólogo do Novo Testamento de 1546 (Bibel VI, 10)]

 

    Ele continua, negando que a Epístola aos Hebreus pertença a São Paulo; e da Epistola de São Judas, diz que é um extrato da de São Pedro e, portanto desnecessária. Questiona a autenticidade de Apocalipse, afirmando: "Não encontro neste livro nada que seja apostólico, nem profético" (Bibel VII, 404). 

    Esse é o maior problema que eu, particularmente, tenho com o protestantismo. Lutero defendia a doutrina de Sola Scriptura, mas qual Scriptura? Aquela que está de acordo com as crenças pessoais a priori de um teólogo? Parece-me que Lutero arbitrariamente categorizava os livros da Bíblia, ou simplesmente os excluía, conforme as suas convicções teológicas pessoais o guiavam. Ouso dizer que Dr. Scott Hahn, ex-ministro presbiteriano que se converteu ao catolicismo, teve essa mesma linha raciocínio. Leia aqui um diálogo que ele teve com Dr. Gerstner, professor de História da Igreja na Pittsburgh Theological Seminary e Knox Theological Seminary; divulgado em sua obra Todos os Caminhos Levam a Roma:

 

[...] É por isso, doutor Gerstner, que começo a acreditar que Cristo não nos deixou apenas com um livro e o seu Espírito. Aliás, o Evangelho não diz uma única palavra aos apóstolos a respeito de que deviam escrever; além disso, só menos da metade deles escreveram livros que foram incluídos no Novo Testamento. O que Cristo disse realmente – a Pedro – foi: “Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Por isso, vejo mais lógico que Jesus nos tenha deixado juntamente com a sua Igreja – composta por um Papa, Bispos e Concílios – tudo o que é necessário para administrar e interpretar a Escritura.

 

O doutor Gerstner fez uma pausa para pensar. – Tudo isso é muito interessante, Scott, mas você disse que não acha que esse seja o tema principal. Qual é então para você o tema principal?

 

– Doutor Gerstner, creio que a questão principal é o que a Bíblia ensina sobre a Palavra de Deus, já que em nenhum lugar reduz a Palavra de Deus apenas à Escritura. Pelo contrário, a Bíblia diz-nos em muitos lugares que a autorizada Palavra de Deus deve buscar-se na Igreja: na sua tradição (2 Tes 2, 15; 3, 6), assim como na sua pregação e ensino (1 Ped 1, 25; 2 Ped 1, 20-21; Mt 18, 17). Por isso, penso que a Bíblia apoia o princípio católico de solum verbum Dei, “só a Palavra de Deus”, em vez do princípio protestante sola Scriptura, “só a Bíblia”.

 

O doutor Gerstner respondeu insistindo, uma e outra vez, que tanto a Tradição católica, como os Papas e os concílios ecumênicos, todos eles ensinaram coisas contrárias à Escritura. 

 

– Contrárias a que interpretação da Escritura? – perguntei – Além disso, todos os historiadores da Igreja estão de acordo em que recebemos o Novo Testamento do Concílio de Hipona, no ano 393, e do Concílio de Cartago, no ano 397, e ambos enviaram as suas decisões a Roma, para serem aprovadas pelo Papa. O senhor não acha que do ano 30 ao 393 é demasiado tempo para estarmos sem Novo Testamento? Além disso, havia muitos outros livros que as pessoas de então pensavam que poderiam ser inspirados, como a Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas e os Atos de Paulo. Havia também múltiplos livros do Novo Testamento, como a Segunda Carta de Pedro, a Carta de Judas e o Apocalipse, que alguns consideravam que deviam ser excluídos. Afinal, que decisão seria digna de crédito e definitiva se a Igreja não ensinasse com autoridade infalível? 

 

O doutor Gerstner replicou em tom calmo:

 

– Os Papas, os bispos e os concílios podem enganar-se e de fato se enganaram. Scott, como é que você pode pensar que Deus tornou Pedro infalível? 

 

Refleti durante um momento. 

 

– Bom, doutor Gerstner, tanto protestantes como católicos estão de acordo em que Deus deve ter tornado infalível Pedro pelo menos em duas ocasiões: quando escreveu a Primeira e a Segunda Epístola de Pedro, por exemplo. Ora, se Deus o pode tornar infalível para ensinar com autoridade por escrito, porque é que não podia preservá-lo do erro ao ensinar com autoridade em pessoa? Do mesmo modo, se Deus pode fazer isso com Pedro e com os outros apóstolos que escreveram a Escritura, por que não podia fazer o mesmo com os seus sucessores, especialmente ao prever a anarquia a que se chegaria se não o fizesse? Por outro lado, como podemos estar seguros de que os vinte e sete livros do Novo Testamento são em si mesmos a infalível Palavra de Deus se foram Papas falíveis e concílios falíveis que nos deram essa lista? 

 

Nunca esquecerei a sua resposta: 

 

– Scott, isso significa simplesmente que o que podemos ter é uma coleção falível de documentos infalíveis. 

 

– Isso é realmente o melhor que o cristianismo protestante histórico consegue proporcionar? 

 

– Sim, Scott, tudo o que podemos fazer são juízos prováveis baseados na evidência histórica. Não temos nenhuma outra autoridade infalível além da Escritura. 

 

– Mas, doutor Gerstner, como eu posso saber que é realmente a Palavra de Deus infalível o que estou lendo quando abro Mateus ou Romanos ou Gálatas? 

 

– Como te disse, Scott, tudo o que temos é uma coleção falível de documentos infalíveis.

 

Hahn, Scott. Todos os caminhos levam a Roma (p. 93-95). Editora Cleofas. Edição do Kindle. 

 

A Igreja Católica não alterou a Bíblia adicionando livros não inspirados; os reformadores do século XV, na verdade, alteraram a Palavra escrita de Deus retirando livros inspirados.

 

Objeção 2: Jerônimo e Agostinho não discordaram sobre os livros deuterocanônicos?

 

    Além deles, muitos dos primeiros cristãos mantinham as suas divergências no que diz respeito a esses livros embora muitos Padres da Igreja os citavam nos seus escritos, enquanto outros não. Jerônimo parece ter rejeitado a maioria das partes deuterocanônicas, mas ele aceitou algumas e incluiu todos os sete livros na sua tradução latina da Escritura (Vulgata). Por fim, ele reconheceu que só a Igreja tinha autoridade para determinar o cânon.

  Uma vez que havia desacordo entre alguns Padres da Igreja, tornou-se óbvio que nenhum indivíduo podia fornecer uma lista infalível de livros inspirados. Assim, Agostinho concluiu: "Não temos outra garantia de que os livros de Moisés, os quatro Evangelhos, e outros livros sejam a verdadeira palavra de Deus, mas pelo cânone da Igreja Católica".

    Considerando que não é razoável esperar que cada pessoa leia todos os livros da antiguidade e julgue por si própria se eles são inspirados, a questão resume-se à autoridade de quem deve ser confiada nesse assunto. Lutero faz uma observação pertinente no décimo sexto capítulo do seu comentário do Evangelho de São João: "Somos obrigados a ceder muitos coisas aos papistas [católicos] – eles possuem a Palavra de Deus que recebemos deles, caso contrário, deveríamos saber absolutamente nada sobre isso".

 

Objeção 3: os livros do Novo Testamento nunca citam esses sete livros, isso não indica que eles não são inspirados?

 

  O maior problema com essa objeção é que ela pode ser aplicada para várias livros do cânon protestante do Antigo Testamento. De acordo com o acadêmico protestante Bruce Metzger, "não há no Novo Testamento nenhuma citação direta dos livros canônicos de Josué, Juízes, Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Obadias, Sofonias e Naum; e alusões no Novo Testamento deles são pequenas em número". Como os protestantes aceitam esses livros mesmo eles não serem citados no Novo Testamento, então eles devem aceitar os livros deuterocanônicos também.

    Outro problema com essa objeção é que mesmo se os autores do Novo Testamento citassem diretamente os deuterocanônicos, isso ainda não convenceria os apologistas protestantes de que os livros foram inspirados. Eles poderiam simplesmente dizer em resposta: " daí? O Novo Testamento cita obras apócrifas como o livro de Enoque e até poetas gregos como Menandro. O que realmente conta é se o autor introduz a citação dizendo algo como "Está escrito" ou "O Senhor diz". Porém, de acordo com católico apologista Gary Michuta, menos de um terço do Antigo Testamento protestante é citado no Novo Testamento com esta fórmula introdutória.

    Além disso, há evidências de que alguns dos livros deuterocanônicos são referenciados no Novo Testamento, mostrando que os apóstolos e seus discípulos consideraram os registros desses livros como inspirados. Por exemplo, Hebreus 11:35 descreve indivíduos no Antigo Testamento que "foram torturados, por recusarem ser libertados, movidos pela esperança de uma ressureição mais gloriosa". Essas pessoas são descritas apenas 2Macabeus 7, que descreve irmãos que aceitam tortura em vez de comer carne de porco e violar a lei judaica. Como o contexto de Hebreus 11 inclui a fé como a virtude que "fez a glória dos nossos antepassados" (Hb 11:2), isso significa que os livros que descrevem os mártires macabeus faziam parte do Antigo Testamento que foi usado pelo autor da Carta aos Hebreus.

    

Objeção 3.1: um livro do Antigo Testamento não precisa ser citado no Novo Testamento para ser considerado Escritura; só precisa pertencer a uma coleção de livros que é citada no Novo Testamento. No tempo de Jesus, a Bíblia Hebraica foi dividida em "a Lei" (o Pentateuco), "os Profetas" e "os Escritos", que incluía livros como Salmos e Provérbios. Então, enquanto Obadias não é citado no Novo Testamento, o livro de Malaquias é e isso mostra que os autores bíblicos acreditavam que Obadias era inspirado porque pertencia a uma coleção de escritos chamada "os Profetas".

 

  Essa objeção assume o que tenta provar – que os livros deuterocanônicos pertenciam a uma coleção sem inspiração divina de livros e não eram considerados parte do Ketuvim, ou "os Escritos".

    Os autores dos livros deuterocanônicos não acreditavam que o cânon hebreu estava definido ou que existia um conjunto de livros chamado "os Escritos", do qual nada poderia ser acrescentado. O prólogo de Eclesiástico somente faz referência a Lei, aos profetas e aos outros escritores que os sucederam. 2Macabeus descreve Judas o Macabeu encorajando suas tropas somente "citando a Lei e os profetas" (2Mc 15:9).

    Autores protestantes como Norm Geisler e Ralph Mackenzie, alegam que ausência de comentários sobre esses textos, bem como o fato de não terem sido escritos com pergaminho ou escrita especial "indica que a comunidade de Qumran não via os livros apócrifos como canônicos". No entanto, os comentários para a maioria dos livros do Antigo Testamento protestante não estão presentes nos manuscritos do Mar Morto e livros como Eclesiástico foram escritos em um estilo especial que é exclusivo dos escritos que a comunidade Qumran considerava Escritura.

   O acadêmico Emanuel Tov argumenta que este estilo especial indica quais documentos entre os manuscritos do Mar Morto foram considerados por seus autores como bíblicos, como o livro de Eclesiástico, e quais não foram: "Há um layout especial para unidades poéticas que é quase exclusivo para textos bíblicos (incluindo Ben Sira [Eclesiástico]), e não é encontrado em nenhuma das composições poéticas não bíblicas do deserto da Judeia".

Texto composto a partir desses artigos:

How to Defend the Deuterocanonicals

Answering the Most Common Objection to the Deuterocanonical Books

Did the Catholic Church Add to the Old Testament?

Lutero e a Bíblia

       

    

 

 

 

 

 

 

 

 


Sobre os livros deuterocanônicos

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